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CASTRO DO CASTROEIRO
A investigação arqueológica desenvolvida no concelho de Mondim de Basto tem revelado materialidades que comprovam a acção humana sobre os ecossistemas do território ao longo de mais de 5.000 anos.
A exposição, patente ao público, provém das escavações efectuadas no Castro do Crastoeiro, entre 1985 e 2007, e abrange, de forma particular, as várias dimensões do quotidiano das populações pré e proto-históricas que viveram neste sítio arqueológico. Destacam-se, na mostra, as práticas agrícolas, actividades artesanais (olaria, metalurgia, fiação/tecelagem, trabalho da pedra e da madeira), trocas de produtos, manifestações rituais e artefactos de excepção.
Nesse sentido, pretende-se, com esta abordagem, contribuir para o conhecimento da História mais remota deste território e, ao mesmo tempo, sensibilizar os visitantes para a importância dos vestígios do passado colectivo e à premência da sua preservação.

FORNO DE CERÂMICA
Em 2005 recolheu-se no Sector II do Castro do Crastoeiro um notável conjunto de fragmentos de argila cozida, com espessura considerável, alguns com perfurações circulares, no geral com as superfícies rugosas ou ligeiramente alisadas e cor laranja, com manchas de fumo. Feita a colagem dos fragmentos, obteve-se uma interessante e rara peça, tanto na forma como no processo de fabrico utilizado, com alguns paralelos conhecidos na Península Ibérica, concretamente na Pastoria (Chaves) e Monte Mozinho (Penafiel), em Portugal e em Castromao (Orense), na Galiza. Um outro objecto, cuja forma foi possível reconstituir na totalidade, apareceu em Sévrier (Alta Sabóia), em França, sendo a partir deste exemplar que se tem atribuído a estas peças a funcionalidade de fornos de cerâmica, baseando-se nas experiências de arqueologia experimental realizadas com uma réplica.
(…) estamos em crer, tal como já se admitiu para o forno de Castromao, que o exemplar do Crastoeiro possa ter tido outras funcionalidades, nomeadamente relacionadas com a metalurgia, dada a associação dos fragmentos de argila encontrados com pingos de fundição e outros restos de trabalho de metal.
Pese o facto de apenas ter sido possível reconstituir a sua parte inferior, o forno do Crastoeiro assume-se como um importante achado, pelo contributo dado ao conhecimento da tecnologia e das formas de produção durante a Proto-História do Noroeste.
(…) a cronologia desta peça deverá situar-se na Idade do Ferro Recente, isto é séc. II-I a.C.

PRÁTICAS AGRÍCOLAS E DE RECOLECÇÃO
A agricultura e a recolecção são práticas atestadas no registo arqueológico do Crastoeiro, durante todo o tempo em que o sítio foi habitado. A presença de carvões de aveleira e de figueira a par de sementes de bolota e grainhas de uva prova a valorização dos frutos na dieta alimentar das populações. Por outro lado, a recolha de moinhos circulares e a identificação de macrorestos de ervilha e fava e de grãos de trigo, aveia, milho-miúdo, cevada e couve confirmam o exercício de uma agricultura de largo espectro, provavelmente desenvolvida nos socalcos abrigados que descem para o vale da ribeira de Campos.

UTENSÍLIOS DE PEDRA
O material lítico é diversificado tanto na matéria-prima utilizada - granito, quartzo, quartzito, xisto, mármore e sílex - como no tipo de artefactos encontrados, maioritariamente talhados sobre seixos do rio. Além dos moinhos manuais e das fusaiolas, bastante comuns, recolheram-se percutores, trituradores, pequenos polidores, pedras de afiar, uma goiva e um machado.

FIAÇÃO
A exemplo do que se observa noutros sítios arqueológicos, a fiação e a tecelagem terão sido práticas comuns no Crastoeiro. A lã, fornecida pelos rebanhos de ovelhas e, o linho, que se supõe ter sido cultivado, eram recursos importantes para a comunidade. O aparecimento de um número muito significativo de fusaiolas, de pesos e dimensões variáveis, talhadas em pedra e em cerâmica, provam estas actividades domésticas.

CERÂMICA
Entre os materiais arqueológicos recolhidos no Crastoeiro destaca-se, pela quantidade representada, a cerâmica indígena. As primeiras produções, feitas à mão, integram maioritariamente vasos de ir ao lume, ressaltando do conjunto as formas tipo panela e púcaro, com perfil em S. Numa fase posterior, a partir do séc. II a.C., a roda de oleiro passou a ser usada no fabrico de loiça e esta diversificou-se podendo agora encontrar-se, também, malgas, tachos com asas interiores, panelas com asas em orelha e, grandes talhas para armazenamento de provisões ou de água.

DECORAÇÃO CERÂMICA
Os poucos exemplares de cerâmica com decoração encontrados no Crastoeiro utilizam as técnicas da incisão simples em associação com a plástica e impressa. Além de sulcos horizontais e linhas incisas, dispostas de forma a configurarem triângulos, regista-se a presença de pontilhados, motivos foliáceos, sub-circulares e recticulados, círculos simples ou concêntricos, meias luas, escudetes, séries de SS e cordões com incisões formando “espinha”.
Regra geral os motivos aparecem em bandas delimitadas por incisões horizontais, integrando-se, por vezes, em esquemas complexos que articulam vários motivos estampilhados.

TACHO COM ASA INTERIOR
Raros na fase antiga, mais usuais na Idade do Ferro Recente, os tachos, com asa interior, representam grandes recipientes, pouco fundos, que terão funcionado suspensos sobre as lareiras considerando os vestígios de fuligem e utilização ao fogo que apresentam. Um interessante objecto de ferro, articulando duas peças, sugere uma cremalheira provavelmente usada para suportar sobre o lume estes utensílios.

MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO
Destaca-se neste conjunto de artefactos vários fragmentos de argila de revestimento com negativos de ramagem e com vestígios de pintura.

METALURGIA
Admitindo-se que alguns artefactos recolhidos no Crastoeiro possam ter origem exterior, como resultado de múltiplos processos de intercâmbio, a identificação de escórias, aderências e pingos de metal e a recolha de grampos ou remendos de ferro, em fragmentos de cerâmica, atestam práticas metalúrgicas locais desde os inícios da Idade do Ferro.

OBJETOS METÁLICOS DE ADORNO
Destacam-se: Fíbula transmontana em ferro; Fíbula transmontana em bronze; Fíbula tipo Sabroso em bronze, Fíbula Ómega em bronze.

OUTROS OBJECTOS DE ADORNOS
O achado de diversas contas de vidro transparente com ligeiro reflexo dourado e, com tonalidades amarelo, castanho e azul forte, indicia a integração do Crastoeiro nas redes de intercâmbio supra-regionais, nomeadamente com o Mediterrâneo.

MOEDAS
Entre os itens de excepção, recolhidos no Crastoeiro, destacam-se três denários (moedas romanas em prata), dois deles cunhados em Lugdunum (Lyon), datados de (2 a.C. – 4 d.C.) período de Octávio César Augusto e um cunhado anteriormente em Roma, datado do período da República (60 a.C.).
Estas moedas e outros artigos – poucos - fruto de intercâmbio supra-regional parecem mostrar a fraca integração da população do Crastoeiro no âmbito da esfera romana peninsular.

Textos de António Dinis, arqueólogo

LIGAÇÕES

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