O edifício do lagar/fábrica de azeite “Azenha da Casa da Igreja” foi construído em finais de 40, inícios de 50 do século XX e depois de equipado esteve em funcionamento até finais dos anos 90 do mesmo século. Este lagar, bem como a propriedade Casa da Igreja foram adquiridos pela Câmara Municipal de Mondim de Basto em meados de 90 do séc. XX.
No concelho de Mondim de Basto, a recolha de azeitona e extracção de azeite tinha início em Janeiro ou na semana anterior ao Natal podendo prolongar-se até ao mês de Abril.
Segundo informações dos antigos feitores da Casa da Igreja, o lagar extraía cerca de 18 pipas de azeite por ano (anos 70) equivalente a cerca de 11 000 litros.
Refira-se, como curiosidade, que naquele tempo, o azeite utilizado na iluminação, dia e noite, do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz, era fornecido pela Azenha da Casa da Igreja.

Apontamentos sobre a história da oliveira
A oliveira é uma das árvores mais ricas em significado simbólico, valor histórico e económico. O lugar da sua aparição não é fácil de determinar. No entanto alguns autores consideram que a pátria pré-histórica da oliveira teria sido a região que se estende desde a Síria até à Grécia, porque, a oliveira na sua forma silvestre, constitui-se em verdadeiros bosques sobre toda costa meridional da Ásia Menor.
Antes da conquista e da ocupação da Hispânia pelos romanos já a oliveira e o azeite eram conhecidos pelas antigas civilizações, egípcia, hebreia, fenícia, grega, etc.
Na Espanha, no período visigodo, a oliveira mereceu particular protecção da lei. A maior indemnização, estipulada pelo código visigótico, era para o corte da oliveira, quando este se efectuasse contra a vontade do dono.
A partir do século VIII, os árabes, após a conquista, assenhorearam-se das mais férteis regiões da Península e deram continuidade às tradições agrárias dos romanos. Mas, os verdadeiros agricultores continuaram a ser os descendentes dos primeiros colonos romanos, agora pertencentes às comunidades moçárabes.
No processo de reconquista, os povos românicos, ao mesmo tempo que iam libertando as terras peninsulares, estabeleciam, simultaneamente, contacto com outros usos e costumes, e, sobretudo, com a língua de raiz muito diferente.
Do contacto entre vencedores e vencidos resultou uma interpenetração do vocabulário, e, este fenómeno linguístico teve como efeito prevalecerem muitas palavras da língua vencida na fala dos povos dominadores. A este respeito, um dos mais interessantes exemplos é dado pelos termos azeite e azeitona, de uso comum a toda a Península Ibérica.
A palavra azeite deriva do árabe azzail, que em hebraico se exprime por zait e em egípcio por djôit; azeitona tem a sua origem no termo árabe azzeitun.
Entre os autores latinos, oliva e olea significavam simultaneamente oliveira e azeitona e olea também designava azeite.
Com a reconquista, no espaço correspondente ao Condado Portucalense, verifica-se que a oliveira já aparecia na toponímia como é o caso de ulvaria em 1066 que corresponde à conhecida freguesia de Oliveira do Douro (Gaia).
O Condado Portucalense, depois reino de Portugal, nasceu do impulso da reconquista cristã. À medida que a presúria progredia mais para o sul, com a ocupação de territórios, acresciam as riquezas e uma delas foi o azeite.
Na alta Idade Média a cultura da oliveira e o consumo de azeite verificavam-se apenas nas regiões do sul. Aqui, o mouro amanhou as terras com perícia e foi grande cultivador de olivais como nos mostram os documentos dos séculos XII e XIII.
Nos séculos XIV e XV a produção de azeite concentrava-se ainda entre Coimbra e Évora.
No século XVI verifica-se já abundante produção de azeite e o seu consumo chega a todo o país. Na segunda metade deste século a cultura da oliveira constituía uma importante fonte de riqueza no sistema da economia do reino e a sua progressiva expansão atingiu as terras do Norte, nas proximidades da linha do Douro.
O século XVII é designado como o século azeiteiro, e um autor refere mesmo que “depois da vide a mais valiosa cultura era a oliveira”.
No século XVIII a distribuição desta cultura já se estende a todas regiões do país.
LANGHANS, F. P. - Apontamentos para a Historia do Azeite em Portugal. Junta Nacional do Azeite, 1949

A oliveira em Mondim de Basto
As primeiras referências que se conhecem até ao presente sobre a oliveira e o azeite no nosso concelho provêem do foral que D. Manuel I outorgou a Mondim de Basto em 1514. No entanto, essa referência poderá estar unicamente relacionada com os impostos atribuídos ao consumo no século XVI (LANGHANS, 1949).
Da análise efectuada à documentação histórica conhecida até ao presente, poder-se-á afirmar que a oliveira já seria conhecida na nossa região no séc. XVI, mas, a sua expansão, na área correspondente ao actual concelho, apenas terá ocorrido em meados do século XVII.
No século XVIII a presença da oliveira e a produção de azeite são uma realidade incontestável como se pode verificar nas Memórias Paroquiais.
Na resposta a este inquérito, o Manuel Paulo da Silva Pereira, pároco da freguesia de S. Pedro de Vilar de Ferreiros diz que “ A terra (…) he fertilíssima na produçaõ de fructos, sendo especial em milho grosso, e miudo e senteyos com vinhos admiráveis no seu género, porque saõ dos que se daõ nas arvores dos milhores desta qualidade, produz azeite. (…) Tem alguns Moinhos e pizoens ainda que Arruinados, e por levadas com imenso trabalho foraõ tiradas parte de suas agoas trazidas aos lugares de Villarinho e de Villar de Ferreyros, nos quais lugares fazem também moer moinhos e lagares de azeyte, (…).
Manuel de Carvalho, pároco da freguesia de S. Cristóvão de Mondim de Basto diz que (…) “Os frutos que produz esta terra em Mayor abundância que recolhem os moradores della, pam de milham, vinho, azeite.”
Até aos anos 50 do século XX todos os lagares de azeite do concelho utilizavam uma tecnologia muito arcaica e a principal força motriz utilizada para accionar os moinhos era a água (hidráulica) e, onde esta não chegava, o que era raro, utilizava-se a força animal; no entanto, as prensas eram todas de vara.
A partir desta época foram efectuados melhoramentos nalguns lagares com a introdução de prensas de parafuso.
A grande inovação para a época, em termos tecnológicos, verificou-se quando a Azenha da Casa da Igreja foi construída de raiz tendo este lagar funcionado até inícios dos anos 90 do século XX.
Nos últimos 30 anos, a falta de mão-de-obra originada pela crescente emigração, o abandono das terras, e outros factores, contribuíram para a diminuição drástica da apanha de azeitona actividade que tende a desaparecer.

Ciclo produtivo do lagar/fábrica de azeite Azenha Casa da Igreja
Nos inícios de Janeiro colhia-se a azeitona. Esta até ser transformada em azeite passava pelas seguintes etapas:
1) Pesagem (balança decimal, mais tarde industrial)
2) Armazenamento nas 5 tulhas podendo ser despejada imediatamente no sistema automático transporte de azeitona (sistema colocado nos anos 70) que a levava até à moenda (pio, moinho, etc.).
Alguns clientes com receio de perder alguma azeitona e azeite, preferiam acarreá-la pelas escadas acima para a despejar directamente no reservatório que dava para a moenda.
3) Trituração da azeitona no moinho de duas galgas.
4) A azeitona transformada em pasta era vertida na termobatedeira para ser batida durante alguns minutos a fim de melhor libertar o azeite.
5) Depois de batida a massa era despejada automaticamente no masseirão.
6) A partir deste reservatório enchiam-se manualmente os capachos com a massa da azeitona para depois de devidamente encastelados seguirem num carrinho (antes dos anos 70 utilizavam-se vagonetas sobre carris) até às prensas hidráulicas.
7) Já nas prensas, a massa era sujeita a uma enorme pressão exercida pela bomba hidráulica para libertar um líquido misto composto por azeite e águas de vegetação (água ruça) vertido nas tarefas.
8) A partir das tarefas iniciava-se o processo de decantação ou depuração do azeite (limpeza, purificação).
9) O azeite, contendo ainda alguma água misturada, era conduzido por um pequeno canal até à centrifugadora.
10) A centrifugadora efectuava a última operação de limpeza (purificação).
11) Depois de limpo, o azeite era vertido em vasilhame metálico do lagar ou dos clientes. A maior parte do azeite era entregue aos respectivos donos pela camioneta da fábrica que recolhia a azeitona, ou nalguns casos, pela empresa Auto-mondinense.
11) Efectuada a prensagem, retiravam-se os capachos e transportavam-se no carrinho ou vagoneta até ao desencapachador para ser retirado o bagaço fortemente prensado.
Esta máquina funcionava na parte exterior do edifício do lagar numa espécie de barracão onde era acumulado o bagaço da azeitona.
Segundo um feitor, nalguns anos a receita da venda do bagaço era suficiente para pagar os vencimentos dos trabalhadores do lagar que laboravam em turnos de 12 horas, ininterruptamente, até ao final da safra, se não houvesse avarias nas máquinas.
A par de alguma maquinaria era necessário que os dois fornos (caldeiras ou caloríferos) estivessem em constante funcionamento (combustão).
Curiosidade: em posição inferior à área de produção, ainda no interior do edifício do lagar, existiam 3 poços (inferno) que recebiam as águas residuais de todo o processo de produção: o 1º recolhia toda a água, o 2º azeite semi-purificado, o 3º azeite em estado puro.
Para proceder à recolha deste azeite, de 20 em 20 dias efectuava-se uma pausa estratégica da produção simulando trabalhos de manutenção. O azeite recolhido era mais uma receita do proprietário do lagar.

Bibliografia
ALARCÃO, Jorge – Um lagar de azeite na Antiguidade. In: História nº 5, O Jornal, Março-1979
GUIMARÃES, Manuel da Silva – A Oliveira e o azeite na região de Tomar: usos e costumes. Tomar, 1979
LANGHANS, F. P. - Apontamentos para a Historia do Azeite em Portugal. Junta Nacional do Azeite, 1949
LOPES, Eduardo Teixeira - Mondim de Basto: memórias históricas. Ed. Autor, 2000
PEREIRA, Benjamim - Tecnologia tradicional do azeite em Portugal. C. Municipal de Idanha-a-Nova, 2005
SOEIRO, Teresa - Lagares de azeite no concelho de Penafiel. Portugália, 1996-1997. Nova Série, vols. XVII-XVIII



LIGAÇÕES

CMMB

BMMB

ZCM