“Descrever um povo”
O concelho de Mondim de Basto estende-se por uma área de 174 km2 e engloba oito freguesias: Atei, Bilhó, Campanhó, Ermelo, Mondim de Basto, Paradança, Pardelhas e Vilar de Ferreiros. Sendo um concelho de transição apresenta duas zonas distintas: a zona ribeirinha, de influência minhota onde predomina as culturas do milho, do vinho e criação de gado vacum; uma zona alta ou de montanha, onde predomina o milho, o linho, o centeio e a criação de gado em regime de pastorícia.

A agricultura foi, desde sempre, a actividade dominante no concelho, uma agricultura de subsistência assente na pequena propriedade, com os ciclos da natureza a marcar profundamente a vida local.

Gado de trabalho, raça minhota ou galega
O gado bovino, com a sua força extraordinária, aliada à perícia humana, moldou durante séculos e séculos, toda a actividade agrícola ribeirinha.
Utilizados nos trabalhos do campo, estes animais ditos de raça galega e ou minhota, desempenhavam funções essenciais na adubação e fertilização dos solos com o esterco que produziam, no amanho das terras, a lavrar e a gradar e no transporte das colheitas, carregando as palhas, o centeio, as lenhas, as batatas, o milho, as uvas e as pipas atestadas.
Os vitelos produzidos, para auto consumo ou para venda, tornaram-se numa das principais fontes de rendimento dos nossos esforçados agricultores.
A raça minhota encontra-se tradicionalmente ligada aos concelhos da extremidade noroeste do território de Entre Douro e Minho sendo aí que se desenrolou a maior parte da sua história conhecida; no entanto, o outro nome pelo qual também é designada – raça galega – alude à sua existência no território espanhol a norte do rio Minho, a Galiza, de onde, no passado era habitual importar estes animais para recria.
Durante a maior parte do século XX considerou-se que o solar da raça era o espaço definido pelos concelhos de Viana de Castelo, Ponte de Lima, Caminha e Vila Nova de Cerveira; porém no século XIX, o gado minhoto já se estendia a grande parte do Minho.
No início do século XXI, depois de uma retracção de efectivos verificada nas duas últimas décadas do séc. XX, o gado minhoto passou a constituir uma população de dimensões modestas. Paralelamente, o espaço onde a sua criação se tornou mais significativa, sofreu uma deriva para os concelhos mais interiores do Minho – segundo um eixo entre Ponte de Lima e Celorico de Basto – e alargou-se em mancha a quase todo o território de Entre Douro e Minho. Com o processo de defesa da raça iniciado, assente no registo zootécnico dos seus animais, o gado minhoto procura actualmente um novo ponto de equilíbrio.

Gado maronês
A vaca maronesa é parte integrante da paisagem e da economia de montanha do concelho de Mondim de Basto. Raça de aptidão dupla, além de animal de trabalho, produz uma carne de qualidade excepcional.
Os bovinos maroneses constituem uma raça adaptada a regiões montanhosas, encontrando-se não apenas numa parte da serra do Marão, de onde tomam o nome, mas também numa área significativamente mais vasta, segundo um eixo definido pelo conjunto das serras do Marão, Alvão e Padrela. Assim, a sua área de distribuição inclui também toda a Serra do Alvão, prolonga-se pela serra da Padrela em direcção e Chaves, e estende-se a outros concelhos em redor deste eixo.
A região considerada actualmente como solar desta raça reparte-se pelos distritos de Vila Real (Ribeira de Pena, Mondim de Basto, Vila Pouca de Aguiar e partes de Alijó, Boticas, Chaves e Montalegre, Murça, Sabrosa, Valpaços, Vila Real) de Braga (concelhos de Cabeceiras de Basto e parte do de Celorico) do Porto (apenas uma pequena parte do concelho de Amarante).

Vinho
A videira é uma planta nativa da Península Ibérica, pensando-se que foram os Fenícios que aqui iniciaram a produção do vinho, a partir do século VII a.C.
Porém, na nossa região, é provável que tal se tenha verificado apenas com a ocupação romana (Século I a.C.).
O Vinho Verde, objectivo primordial na nossa actividade agrícola a seguir à produção de cereais, era cultivado nas delimitações estreitas e alongadas dos campos, na bordadura das quais se encontra o tradicional enforcado, característico da nossa região.
O vinho ocupa nas necessidades do Homem um lugar de destaque por ser a única bebida que na civilização greco-latina ocupa um lugar cultural.
Mesmo antes do cristianismo, ele representava mais do que um símbolo. Os escritores, os poetas gregos, helenísticos, latinos, até turcos cantaram o vinho, não só como fonte de satisfação material como também meio de excitar o espírito, de desenvolver o pensamento e de favorecer a criação de sentimentos estéticos e culturais. O vinho foi sempre considerado como a mais nobre bebida, a primeira que se oferece a um convidado e a que melhor permite apreciar o talento do produtor. Não é de estranhar, portanto, que toda a vida rural tenha sido tão fortemente marcada por ele. Não só as ferramentas e o material necessário para a viticultura são de uma riqueza extraordinária como, também, as aldeias, as casas e até a própria paisagem são moldadas pelo cultivo da vinha. A maneira de viver, os costumes e a mentalidade são particularmente marcados, pelo que é possível dizer-se que existe uma cultura ligada ao vinho.

Milho
O milho, originário da América Central, trazido, talvez, por Cristóvão Colombo, foi responsável por um vasto leque de modificações culturais, sociais e económicas.
Ao longo de gerações, um trabalho difícil de imaginar, o milho transformou as nossas encostas em sucessões de campos, socalcos e muros onde cada vez se produzia mais pão.
A broa, pão preparado à base de milho, assumiu-se como o elemento base da alimentação do homem e de alguns animais e também como o principal objectivo de toda a nossa produção agrícola.
Em Portugal, a cultura do milho decorre no período Primavera/Verão, sobretudo no Minho, Douro e Beira Litoral, quando o tempo é mais quente, pois para que o milho se desenvolva é necessário que as temperaturas atinjam os 25/30ºC; a quantidade de água disponível é também determinante para uma boa produtividade. Após a colheita, no início do Outono, era tradição, celebrada por todo o país, a reunião das pessoas que trabalhavam nos campos para, em grupo, retirarem a espiga ou maçaroca da planta - a desfolhada. No meio de muita animação, música, comes e bebes, quem encontrasse a espiga vermelha, o milho-rei, era obrigado a abraçar todas as pessoas presentes.

O Pão
“O pão obtido com a utilização de um fermento – pão que triunfou sobre todas as tentativas de o substituir por pastas de cereal ou por bolos de farinha sem levedação, à maneira dos povos mais primitivos – está ligado à civilização ocidental há seis mil anos. Nenhum outro produto, antes ou depois da sua descoberta dominou o mundo antigo, material e espiritualmente, como o pão foi capaz de fazer. Desde os Egípcios, que o inventaram e que edificaram toda a vida administrativa do país em torno dessa invenção, até aos Judeus, que transformaram o pão em ponto de partida da sua legislação religiosa e social. Vieram depois os Gregos e criaram as mais profundas e as mais solenes lendas para a sua igreja do pão, em Elêusis. E os Romanos fizeram do pão um instrumento da sua política: dominavam com o pão, conquistaram o mundo então conhecido por meio do pão e foi ainda por causa do pão que voltaram a perder o Império. Até que um dia um homem surgiu e unificou tudo sobre o que sobre o pão havia sido pensado, tudo o que por causa dele tinha sido sentido e feito. E esse homem, Jesus Cristo, disse: “Tomai e comei! Eu sou o pão "

Centeio
O centeio é um cereal resistente que sobrevive em climas frios ou secos, em solos arenosos e pouco férteis, e daí o seu cultivo na nossa zona alta de montanha. Apesar de actualmente ser um cereal pouco usado, chegou a ser alimento base, em forma de pão, por longos períodos da nossa História. É provavelmente a melhor das misturas para pão, tanto gastronómica como dieteticamente.

Linho
Das fibras naturais (lã, linho, algodão e seda) o linho era a principal. A produção do linho, depois dos trabalhos próprios de uma cultura no campo, exige um extenso conjunto de operações, que se podem agrupar em três fases: a obtenção da fibra estabilizada e imputrescível, a produção de fio a partir da fibra e, finalmente, a transformação do fio em tecido. Este conjunto de operações era basicamente executado pelo sector feminino dos agregados familiares, numa lógica de economia auto-suficiente, aproveitando raros tempos mortos e, muitas vezes, os serões do Inverno.
O linho era usado em toda a espécie de vestuário, desde a toalha branca que acompanhava a criança ao Baptismo, até ao lençol que amortalhava os defuntos. Também era usado nas toalhas, alvas, corporais e sanguíneos da liturgia da Igreja.
Dos desperdícios do linho fazia-se a estopa, para tecidos mais grosseiros, como por exemplo, camisas de homem e lençóis. Dos desperdícios da estopa fazia-se os tomentos, tecido muito grosseiro utilizado na confecção dos colchões e toldos.

Obras consultadas
ALVES, Jorge Fernandes - O Trabalho do Linho. In MENDES, José Amado;
CENTEIO. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-04-28]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$centeio>.
JACOB, Heinrich Eduard; Justo, José M. (trad.) - Seis mil anos de pão. Lisboa: Antígona, 2003
LOPES, Eduardo Teixeira - Mondim de Basto: memórias históricas. ed. Autor, 2000
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim – Tecnologia Tradicional Portuguesa. O Linho. Lisboa:INIC, 1978
RAÇA MARONESA. In Associação de Criadores de Raça Maronesa [Em linha]. Vila Real. [Consult. 2010-04-28]. Disponível na www: <URL: http://www.marones.pt/raca.html

LIGAÇÕES

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